O ébola dos média e da opinião pública

O ébola dos média e da opinião pública

Qualquer pessoa que esteja minimamente acordada para o mundo nestas semanas ou meses já ouviu falar do recente surto de ébola. Está na boca de toda a gente, esta palavra. Uns receiam mais, outros receiam menos, mas todos receamos.

Este surto de ébola surgiu nos países da África ocidental em Dezembro de 2013 – sendo apenas detectado em Março deste ano – começando na Guiné, e espalhando-se progressivamente naquela zona do globo pela Libéria, Serra Leoa, Nigéria e Senegal. Mais recentemente, tivemos casos já nos Estados Unidos e na Espanha – e foi, naturalmente, este último que fez aumentar o receio aqui em Portugal. Em Agosto, a OMS declarou este surto uma epidemia em estado de emergência internacional.

É importante desmistificar a ideia de que, mal nos seja diagnosticado o ébola, temos o destino traçado, e esse destino é a morte. Nos dados de 1 de Outubro de 2014 sobre este surto podemos ver que há 7493 casos registados de infecções com o Ebolavirus, mas ‘apenas’ – comparativamente, claro – 3439 mortes (já acrescentando as recentes mortes na Espanha e nos EUA). É o pior surto de sempre deste vírus, sim, mas temos de ver que os primeiros países afectados não são propriamente os melhores em termos de condições de saúde, tanto na prevenção como nos cuidados, e isso, claro, ajuda à propagação.

Outra ideia a desmistificar é que o vírus se propaga pelo ar, como muito tenho ouvido e lido. Podemos ficar infectados com o Ebolavirus se entrarmos em contacto com o sangue ou fluídos corporais de um infectado, comermos carne de um animal infectado que esteja mal cozinhada, ou no contacto com alguém que tenha falecido devido a esta doença. Concluo, portanto, que o contágio nas zonas mais civilizadas do mundo – com os cuidados de saúde mais avançados – é bastante difícil. Até porque mal se sabe de um caso, como se está a ver na Espanha, há medidas que entram logo em acção. Se essas medidas estão disponíveis e são eficazes no nosso país, já não me cabe afirmar ou negar. Simplesmente não sei.

Após toda esta informação, é claro que tenho de dizer que este surto de ébola é um caso sério. E chegou a este ponto porque a comunidade internacional foi lenta a reconhecer o perigo e a actuar (quantas vezes o tem sido no que toca a responder a ameaças nos últimos tempos?), nomeadamente a OMS. Simplesmente não acho que seja caso para fazer já dramas.

Na minha opinião, o maior problema com esta situação não é a doença em si. É grave, sim senhor. Porém, para mim, há outra doença que se anda a espalhar por aí, potencialmente até mais grave e mais destrutiva que o ébola: a falta de informação.

A falta de informação é uma doença que pode ter várias fontes, mas normalmente vem da falha dos média em, bom, dar informação precisa e concreta. A histeria resultante destes surtos é sempre útil para aumentar um pouco as audiências e assim, os ganhos com a publicidade.

A minha acusação contra os média portugueses – e não só, atenção – prende-se com o facto de ainda não ter visto nenhum deles a fazer uma paragem na torrente de notícias negativas para explicar devidamente às suas audiências o que é o ébola, o que já aconteceu, como se propaga, o que podemos fazer, quais são as medidas implementadas em Portugal, etc. Explicar isto é importante.

É importante porque, perante tanta notícia a relatar a mortalidade da doença, até o mais comum e pacato dos mortais fica alarmado. Nos últimos dias, perdi a conta ao número de vezes que ouvi dizer que íamos todos morrer, no meio de risos algo nervosos. E hoje então, fartei-me de ver teorias da conspiração a passar à minha frente no meu feed do Facebook. Teorias em que as empresas farmacêuticas eram sempre as más da fita – não vou dizer que não há interesses na indústria e pessoas que, por dinheiro, fazem tudo, mas cuidado com os exageros, meus amigos – e em que o objectivo era o extermínio da humanidade (não vejo como isto pode fazer sentido dentro mesmo da cabeça mais oca, porque automaticamente o extermínio da humanidade levaria ao fim das empresas farmacêuticas… mas pronto).

A razão porque eu digo que a falta de informação pode ser potencialmente até mais grave que o ébola é porque dá azo a histerias. Ora, as histerias são extremamente perigosas, porque gera-se uma reacção em cadeia entre as populações que faz com que haja corridas aos supermercados, que se retirem depósitos dos bancos, por aí fora. E neste século XXI, em que os mercados financeiros são as mulheres histéricas com as hormonas aos saltos do nosso mundo, e que por isso reagem a qualquer coisinha que aconteça, esta falta de informação perto de provocar uma histeria é estar a pedir para que as bolsas comecem a perder pontos atrás de pontos todos os dias e nos levem a nova recessão económica mundial. Isto sendo pessimista, claro. Mas como sem pessimismo, não haveria tratados de paz, é sempre bom ser prudente.

A culpa desta falta de informação não é só dos média, claro. Nos dias de hoje, qualquer pessoa com acesso à internet tem uma autêntica biblioteca de Alexandria nas pontas dos seus dedos. É por isso dever de um cidadão procurar informar-se. Não podemos estar à espera que nos caia a papinha feita no colo a toda a hora e para todas as situações. E se os média não fazem o seu trabalho, que é informar, temos de ser nós, cidadãos, a exigir melhor e a ir nós próprios à procura da informação.

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