Política e desporto: amigos para a vida

Política e desporto: amigos para a vida

Na minha vida, sempre li que política e desporto não se misturam. Que eram tipo água e azeite: juntos mas sempre distintos. Acontece que todos sabemos que isto não é bem verdade. Desde que há desporto na era contemporânea que isto acontece.

Vamos a exemplos. O ano era 1936. O Terceiro Reich já levava uns três anos de existência, e o número de infracções ao ridículo Tratado de Versalhes já ia bem alto. Nesse ano, a Alemanha Nazi albergaria os Jogos Olímpicos de Inverno em Fevereiro e os de Verão em Agosto, numa tentativa de demonstrar a sua supremacia e a da raça ariana ao mundo. Felizmente, embora a sua Alemanha tenha conquistado o maior número de medalhas, Adolf Hitler foi derrotado neste propósito por atletas como Jesse Owens (que também abalou o racismo americano), Cornelius Johnson e muitos atletas judeus, como por exemplo o húngaro Károly Kárpáti.

Outro exemplo. Em 2008, Pequim tem os seus Jogos Olímpicos em infraestruturas impressionantes, com cerimónias de ficar de boca aberta, branqueando as múltiplas violações dos direitos civis e humanos cometidas continuamente pelo país que, ao contrário das Olimpíadas de Pequim, continuaram.

Ainda outro exemplo. Após em 2011 a Primavera Árabe ter chegado ao Bahrein em força, com o regime imposto pela minoria sunita à maioria xiita a oprimir violentamente protestos pacíficos e a fazer raids nocturnos em bairros xiitas, o Grande Prémio do Bahrein de Fórmula 1 foi cancelado pelos seus organizadores por falta de condições de segurança. No ano de 2012, porém, isto não aconteceu, e tanto a FIA, organismo regulador deste desporto, como o presidente da FOM – detentora dos direitos de imagem da F1 – Bernie Ecclestone insistiram que tudo estava bem, pelo que o Grande Prémio foi para a frente no meio de violentos protestos, no meio dos quais alguns membros de uma equipa foram apanhados. No dia da corrida, aliás, as câmaras de televisão evitaram cuidadosamente o que os fotógrafos quiseram mostrar: nuvens de fumo negro à volta da pista, consequência dos protestos e luta entre polícia e manifestantes.

Saltemos então para 2014, um ano espectacular neste assunto. Os Jogos Olímpicos de Inverno tiveram lugar em Sochi, na Rússia, um país conhecido por respeitar a soberania dos seus países e regiões vizinhos/as como a Abecázia, a Ossétia do Sul e, mais recentemente, a Crimeia e toda a Ucrânia. Foi tudo muito lindo, infraestruturas e paisagens maravilhosas. Belo. O regime de Putin regozijou de alegria.

No Brasil, a pobreza, miséria e caos social do país desaparecem por trás de um Mundial de Futebol que gasta dinheiro suficiente na construção de estádios para renovar completamente o sistema de saúde e educação daquele país. Suspirei de alivio quando o Brasil perdeu contra a Alemanha daquela forma. Tudo o que eu não queria ver ali era a selecção brasileira a sagrar-se campeã. Faltam ainda os Jogos Olímpicos de 2016, que serão provavelmente mais do mesmo.

Para a Rússia, falta o Mundial de Futebol de 2018. Ainda veremos se o Qatar consegue sacar de mais uns belos milhões para convencer a FIFA a que o Mundial de 2022 fique por lá, apesar de tudo o que já se disse, tanto no campo dos direitos humanos, como no das temperaturas altas.

Passemos para o que aconteceu hoje, o que me fez ter vontade de escrever isto. Hoje foi dia do primeiro Grande Prémio da Rússia da F1. Não vi a corrida, mas pelo que sei foi uma seca. Mas Vladimir Putin gostou muito. Chegou logo após a corrida ter perdido interesse, e a partir daí apareceu na transmissão, durante a corrida, quatro vezes na tribuna VIP à beira de Bernie Ecclestone… e do Rei do Bahrein. Recebeu um passe permanente para o paddock da F1 e, após a corrida, foi ao pódio entregar pessoalmente o troféu ao vencedor.

Ora, a Fórmula 1 é um desporto que insiste que não faz política. Mas isto depende das situações. No GP da Turquia de 2006, o troféu do vencedor foi entregue por Mehmet Ali Talat, indicado nas legendas como presidente da República Turca do Chipre do Norte, um país apenas reconhecido pela Turquia. O incidente valeu uma multa de 2.5 milhões de euros e o início do desinteresse do Governo turco pela corrida, que não podia mais usar como instrumento de afirmação política. Anos mais tarde, o evento sairia definitivamente do calendário, após Recep Tayyip Erdoğan, nessa altura primeiro-ministro desde 2003, não aprovar o investimento do estado turco na corrida.

Nos últimos anos, os eventos desportivos mundiais mais vistos têm sofrido isto. Tanto FIFA como COI estão contentes em vender os seus eventos mais conhecidos a países que não se importam de desembolsar largas quantias para aparecerem nas casas dos telespectadores mundiais como perfeitos e belos. FIFA, COI e, já agora, FIA, insistem que não se metem na política. Estes exemplos mostram claramente o contrário.

A ideia de que um evento ou desporto com alcance global, em que os governos locais gastam rios de dinheiro, consegue existir num vácuo político, intocável e acima de todas as suspeitas, é absurda em todas as suas letras. É cinismo com direito a uma pitada de ingenuidade e os exemplos dados demonstram precisamente isso. O que aconteceu hoje, durante a transmissão do GP da Rússia, foi apenas mais uma prova, mostrando quem é que este tipo de eventos beneficia. O que aconteceu hoje com a Fórmula 1 e Vladimir Putin foi propaganda de um culto de personalidade, uma que insiste em fazer regressar ao mundo a ‘glória’ da defunta União Soviética, esse grande aglomerado de países que outrora fez frente ao Ocidente até com o que não tinha, mesmo que para isso fosse preciso reprimir para unir. O que aconteceu hoje foi um ensaio para o que vai acontecer daqui a quatro anos, no Mundial de Futebol de 2018 na Rússia.

Não nos deixemos enganar. Estes eventos desportivos mundiais estão pejados de afirmações políticas, precisamente por serem mundiais. São um palco que tem as suas cortinas abertas a milhões de pessoas, um palco com um poder inestimável. A política gosta de dar uso a esse palco. E os desportos não se queixam, porque as suas contas bancárias crescem mais um bocado. 

A política e o desporto nunca estiveram tão envolvidos um com o outro. Ninguém sai com boa cara desta relação. Porém, enquanto o dinheiro entrar, pouco importa a imagem.

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