A bruxa foi detida. Começou o exame a Portugal

A bruxa foi detida. Começou o exame a Portugal

Ontem, voltava eu do cinema com os meus amigos, quando recebo no telemóvel a mensagem “Holy shit, estás a ver as notícias?” Rapidamente fui verificar – instigado pela curiosidade que um dia há-de me servir bem quando for jornalista, se tudo correr bem – e para meu espanto e imediato gozo, elas diziam que José Sócrates tinha sido detido para interrogatório. (É esta a história que vou contar quando em 2050 me perguntarem onde estava quando o Sócrates foi preso.)

Em termos de notícias, para o nosso país, isto é bombástico. Caiu no país como uma notícia a dizer que, de repente, a nossa economia tinha crescido 5% no último trimestre. O mesmo é dizer, as congratulações por este acontecimento não tardaram entre os portugueses.

Pois bem, meus amigos, começou o exame a Portugal e o primeiro exercício já está errado. Massivamente errado.

Durante a noite, rapidamente passamos para o discurso de Paula Teixeira da Cruz – admira-me, aliás, que a mulher ainda não tenha dito nada. Ninguém está acima da lei, acabaram os tempos da impunidade, etc. Concordo que há sinais de mudança. Afinal, deve ser a primeira vez que os gabinetes do Ministério da Justiça não têm um grupo de assessores cuja única função é contactar a PJ, DCIAP e associados quanto a investigações decorrentes sobre figuras ligados aos governos.

Mas primeiro, é preciso ter cuidado, porque ainda nem sequer se sabe em concreto o que fez Sócrates ser detido para interrogatório. Tráfico de influência, branqueamento de capitais e corrupção – tudo isto são nomes gerais para crimes, que podem querer dizer muito e acabar por significar pouco (mas que, obviamente, significam alguma coisa). E são suspeitas! Quer dizer isto que nada está provado. E por muito que tenhamos contra o homem, há que ter em conta a presunção de inocência – no mínimo, presunção de não culpabilidade.

Neste primeiro exercício, na minha opinião, também os média falharam. Primeiro, se a investigação é segredo de justiça, gostava de saber como é que a SIC sabia o suficiente para ir para a beira do Aeroporto da Portela poder dar a notícia. As suas fontes terão, com certeza, mas… é segredo de justiça! E foi violado!

Depois, claro, a forma como a notícia foi dada. Bombástica e espectacularmente se anunciou que Sócrates tinha sido detido, quando, mais uma vez, ainda nem sequer se sabia porquê. Porque era isso que importava. Dar a notícia que um dos inimigos da nação tinha sido detido. Não se sabia mais nada a não ser que Sócrates tinha sido detido, e perdi a conta ao número de especulações que ouvi e li sobre o que podia, eventualmente e hipoteticamente, acontecer. O homem pode ter feito muito mal, mas não devem todos ter um tratamento justo? Inevitavelmente, os média dão o mote para como a opinião pública se comporta. Não são totalmente responsáveis – seria ridículo pretender que são – mas influenciam.

Quem também influencia a opinião pública são os políticos. Esses, sim, não têm estado à altura. Edite Estrela disse, no Facebook, que a detenção de Sócrates era uma tentativa de desviar a atenção de outros casos – reconheço que dê jeito aos partidos que estão no governo, mas recuso a teoria da conspiração – e Duarte Marques, também naquela rede social, gritou aleluia. Misturar política e sentimentos com justiça esteve na moda ontem, para desgraça da separação de poderes. Para quê dar o exemplo, quando se pode ganhar votos logo assim, não é?

Aproveito também para criticar o clubismo político que actualmente se vive em Portugal, e a incompleta negação de equilíbrio e uso da razão no pensamento. As redes sociais encheram-se de comentários em que partidários do PS acusavam os do PSD, e vice-versa, e digo-vos que, tendo-me dedicado à leitura de uma destas discussões – pela feliz ocorrência de que não terei avaliações na próxima semana – nenhum deles estava a usar a cabeça, porque estava tudo distorcido pela retórica partidária. E se há coisa que detesto é isso.

Outra nota: desenganem-se aqueles que pensam que isto é o fim dos problemas de Portugal. Afinal, quantos já foram os detidos precisamente por estas suspeitas, para depois sair em liberdade? Oliveira e Costa é um belo exemplo. Ricardo Salgado outro. O Paulinho das Feirinhas, embora nunca detido, é outro exemplo. E quantos mais serão? E quem é responsável pelas privatizações a preço de saldo de tantas grandes empresas em que o Estado tinha uma golden share, dando apenas um exemplo? Será que os tempos da impunidade acabaram mesmo? Não sei. Estamos num bom caminho, mas só me atrevo a dizer esta frase quando vir consequências judiciais.

Para além disso, não é isto que vai de repente libertar a economia nacional. Ainda há muitos problemas a resolver. O BES/GES é um, que tem o potencial para acabar como acabou o BPN. A verdadeira reforma de Estado, no meio de todo o rigor com que cumprimos – desleixando-nos no défice – as imposições da troika, ficou onde?

Desejo que, no resto do exame, Portugal passe – embora duvide muito – com o mínimo de erros possível. E isso requer que os partidos políticos não usem esta detenção e as suas potenciais consequências como arma de arremesso  (pois, boa sorte com esta…), sujando assim a campanha; requer que a justiça funcione de forma independente e imparcial, evitando as fugas de informação, evitando os erros, que neste caso serão bem mais caros que o normal; requer que os jornalistas e os OCS tratem a informação com cuidado, evitando disparar antes de confirmar, evitando os espectáculos mediáticos como o que aconteceu durante a noite.

Se não se cumprir isto, estaremos a apunhalar, mais uma vez, o nosso sistema democrático e a nossa justiça. O caso é grave, e é para ser tratado com cuidado.

Será que desta vez conseguimos ser bons alunos?

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