Smells Like Rotten Europe

Smells Like Rotten Europe

Estas últimas semanas têm sido bastante atribuladas para a União Europeia. Principalmente porque, de um dia para o outro – mas não inesperadamente, e por isso é que aquela queda nos mercados no dia seguinte não foi causada pela Grécia, que não tem poder suficiente para isso – um partido de esquerda radical (Syriza significa isso em grego, o que me leva a dizer que o nome foi mal escolhido, porque o programa é tudo menos radical) tomou o poder num país farto de levar com a mesma ladainha – esta é para ti, Henrique Monteiro – dos partidos do seu arco da governação, e um eleitorado que sente já não ter nada a perder decidiu experimentar algo novo.

Para grande choque do establishment europeu – agora parece que não se pode escrever crónicas sem enfiar estrangeirismos lá para o meio, por isso aí têm – e principalmente para um certo coelho rabugento lambe-botas, Alexis Tsipras, o líder do Syriza, começou logo no primeiro dia a cumprir as suas promessas eleitorais. O horror. A tragédia. A desilusão de todo um eleitorado que vê o mandato dado a um governo a ser logo respeitado… meu Deus, como este governo grego é um perigo!

Não. Não é um perigo. Perigo e tragédia são os governos sociais-democratas e socialistas que têm governado a Europa nas últimas décadas. Governam tão bem que há pessoas que preferem votar em partidos que começam como piadas num pub ou cujo fundador diz que as câmaras de gás nos campos de extermínio nazis são “só um detalhe” na história da Segunda Guerra Mundial.

Perigo e tragédia é a direita deste país que, vendo as pessoas a simpatizar com o novo governo grego, tenta de todas as formas dizer que Tsipras, Varoufakis e o Syriza são más notícias. Vejam o espaço de opinião do Observador, por exemplo. A conta do Twitter de Bruno ‘Choninhas’ Maçães. Paulo Rangel, esse baluarte do… não sei bem o que escrever…, que avisou no Público que “há-de chegar o PREC à grega, com a agenda política de nacionalizações, expropriações e reversão das relações de produção.” A insistência em apontar dedo à coligação com a extrema direita, quando foi dito desde a primeira hora que a coligação se dava apenas em temas relacionados com a política financeira e económica. A ridícula insistência na falta de mulheres nos gabinetes ministeriais. As reportagens de José Rodrigues dos Santos na Grécia, muito bem desconstruídas aqui. O cachecol de Varoufakis… epá, dá vontade de mandar a direita toda para um sítio onde o sol não brilha, para não estar aqui a insultar directamente.

A direita, tem-se provado nos últimos anos, estava errada. Ainda está. Atirem gráficos com estatísticas à vontade a tentar afirmar que a austeridade é que é, e eu não acredito. Digam que o desemprego caiu, e eu mostro-vos a notícia do DN que diz que há várias centenas de milhares de desempregados desaparecidos das estatísticas, e digo-vos que os estágios profissionais pagos de alguns meses pelo Estado são só para disfarçar estatísticas. Digam que o welfare state – pimba, outro – está de boa saúde, e eu mostro-vos o estado dos hospitais e da Segurança Social. Por aí em diante. A austeridade é o único caminho? Então olhem, não sei, vou ali a Vénus inalar um bocado daquela atmosfera repleta de oxigénio.

E os órgãos de comunicação social, na sua subserviência para com o poder político e financeiro, usam o seu papel como ‘quarto poder’ – se ainda têm credibilidade suficiente para ter esse poder, isto é – para manchar o Syriza e distorcer todas as suas intenções. Incrível como a recusa de fazer algo tão simples como uma pesquisa no Google fez com que tivéssemos títulos que na verdade eram interpretações de outros títulos, sendo esses títulos por sua vez exemplos de como fazer um título para enganar pessoas. Eu até ria, se isto não desse vontade de chorar de tão grave que é.

Vamos lá ver: as políticas do Syriza são tudo menos radicais. São as com mais bom-senso que já vi nesta Europa. Indexar o pagamento da dívida ao crescimento da economia grega faz todo o sentido, a não ser que sejamos a Alemanha, que está a lucrar milhares de milhões com juros da dívida por estes dias. O actual programa de ajustamento provocou uma contracção gigantesca da economia, e assim um aumento da dívida pública em relação ao PIB. A austeridade elevou a percentagem de gregos em privação material grave – isto é, pobreza extrema – para 20% em 2013, um aumento de nove pontos percentuais em cinco anos. Mais: um (ou três, as estatísticas contradizem-se) milhão de pessoas não tem acesso a cuidados de saúde, sendo que a taxa de nados-mortos aumentou 21% entre 2008 e 2011, e a taxa de mortalidade infantil subiu uns meros 43% entre 2008 e 2010. Os cortes na saúde têm sido tais que a malária regressou à Grécia depois de 40 anos e a taxa de infecção de HIV disparou. Isto pode não ser uma crise humanitária como a do Sudão do Sul, mas qual é a lógica de tentar implementar sistemas de saúde e educação em países desfavorecidos e depois destruir esses mesmos sistemas aqui na Europa?

E agora, que o acordo foi conseguido, estamos todos preocupados em ver a que promessas eleitorais falhou o Syriza. Incrível como a nossa imprensa tem a capacidade para escrutinar tão finamente o que se passa na Grécia quanto a promessas eleitorais, mas quando é sobre política portuguesa é tudo comido pelos spin doctors e mais o raio que o parta… aliás, já o está a ser e as nossas legislativas só são depois do Verão…  E andamos para aqui a avaliar as promessas do Syriza para com o povo grego… não somos nós que não somos a Grécia?

Um grande problema para Merkel e as suas elites europeias é o da dívida. A dívida pode ser muita coisa, mas é sem dúvida um instrumento de controlo, de dominação. A ladainha é ‘nós emprestamos dinheiro, mas vocês têm de fazer isto’. Uma economia que não se desenvolve tem de arranjar dinheiro em algum lado, e lá vamos nós outra vez pedir emprestado. O maior problema para a direita europeia é que a sua dominação está a ser contestada e esta contestação já tem assento na governação de um país. Os mecanismos da direita para subjugar e convencer os seus povos ficaram velhos, ultrapassados. Como tal, esta sente estar a perder o controlo, e reage abruptamente ao fenómeno Syriza. Governos de países como Portugal e Espanha, na linha da frente para um alastramento desta contestação, foram dos que mais fortemente criticaram as políticas do Syriza, e insistiram na sua difamação. Parece que Maria Luís Albuquerque até pediu a Schäuble para ser duro com Varoufakis nas negociações… Porque Tsipras e os seus colegas têm de falhar, a todo o custo, não vá dar-se o caso de se mostrar ser possível governar para as pessoas e com as pessoas, em vez de contra elas. Ah, democracia, essa chatice…

Este governo grego é uma lufada de ar fresco numa Europa que já cheira a mofo. A podre mesmo. É uma lufada de ar fresco porque é uma alternativa. Nesta Europa já nada se debatia. Era tudo inevitável, tinha tudo de ser. E agora, finalmente, uma alternativa chegou ao poder. Já se viu que a austeridade não resulta, agora tenta-se de outra forma. Porque as teorias económicas são muito bonitas no papel, mas na realidade é que se vê como funciona. A Europa dos últimos anos é uma Europa morta: a braços com uma crise que abanou severamente a sua fraca moeda única, falta a vontade política para criar agora os instrumentos e fazer as cedências necessárias para que ela funcione e se torne mais forte. Falta algo parecido com o New Deal de Roosevelt no pós-Grande Depressão. A única vontade que vejo na Europa é de submissão financeira para com um país que, em termos de população, representa apenas 16% da população da UE. A Alemanha diz, a União Europeia faz.

O 1º passo está dado. A Grécia conseguiu algo admirável: mandou a troika para a cova e começou a negociar com de forma directa com cada instituição. Conseguiu a muito desejada flexibilidade no saldo primário. O direito de veto da Alemanha desapareceu, e o acordo é feito de propostas gregas, e não de imposições alemãs/europeias.

Acham que conseguem melhor do que isto no vosso primeiro mês de trabalho? Então fumem menos drogas.

P.S.: Peço desculpa pela referência a Nirvana, mas foi o que saiu para o título.

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