2015 – Ficas sem título, filho

2015 – Ficas sem título, filho

Democracy Challenge
Último dia de 2015. ESTOU PRATICAMENTE A MEIO DO MEU CURSO, CHIÇA! COMO!?

Desculpem lá a exaltação, amigos. O que se segue é uma análise do ano que acaba daqui a algumas horas. Um ano que é demasiado difícil de perceber ainda. Por isso é que este texto fica sem título.

Internacionalmente, o assunto do ano é o terrorismo. E os refugiados. E o Estado Islâmico. E a Síria. E escusado é dizer que isto está tudo ligado. Começamos o ano com o atentado ao Charlie Hebdo. Esse, para a maior parte das pessoas, foi fácil de relativizar. Afinal, eles tinham-se posto a jeito e estavam a pedi-las, não é? (Já tive naquela altura a minha dose de defesa da liberdade de expressão, e que essa liberdade não tem limites, e que ninguém está acima de ninguém. Não me vou meter nisso de novo.)

Pois, peço desculpa mas nesse dia de Janeiro, a partir do momento em que o meu Tweetdeck começou a encher-se, aos poucos, desse assunto, não larguei. Não estudei mais nada de jeito para o teste que tive no dia a seguir. Segui o assunto como pude, acompanhei a cobertura da BBC enquanto a França vivia uma autêntica caça aos homens, com o cerco de quase oito horas em Dammartin. Senti-me aliviado quando o cerco acabou. Aliviado pelos reféns que saíram fisicamente ilesos. Para aqueles dois, estou-me nas tintas. Não merecem atenção. A situação do supermercado apenas intensificou a tensão na França. E mostrou algo que as pessoas só em Novembro perceberiam.

O que aconteceu em Novembro fez as pessoas aperceberem-se que aquelas pessoas estão contra o nosso modo de viver, e nada mais. Ou vão dizer que aquelas pessoas estavam a pedi-las por terem ido sair à noite em Paris beber um copo, comer fora ou ouvir um concerto?

O que aconteceu em Novembro foi um acto planeado, mas ainda assim indiscriminado. Quem estivesse lá, fosse quem fosse, ia sofrer. Senti-me horrivelmente mal enquanto as actualizações caiam no meu telemóvel. Senti-me horrivelmente mal quando percebi que uma amiga estava em Paris naquela noite.

Desde antes dos atentados de 11 de Setembro de 2001 que já se diz que as guerras não são como antes. E a verdade é que não são, e isso é difícil de perceber. Antes, a coisa era bastante simples. Um país, zangado com outro, declarava guerra. Mandava uma cartinha a dizer, basicamente, ‘Não gosto de ti. Vamos andar à batatada?’

Pois… dizer que, desde os atentados de Londres, a capital britânica não saiu do alerta vermelho de terrorismo é capaz de ajudar a compreender. As guerras não são contra países. São contra grupos terroristas, pequenas células rebeldes/radicais ou mesmo pessoas. Não se manda uma cartinha a dizer-se que se quer lutar. Manda-se alguém ir ao país de que não gostamos dar uns tiros a pessoas que só estão a viver o seu dia-a-dia normal. E depois mandam-se drones com bombas para o país onde está essa organização terrorista. É uma coisa a que os tratados e leis internacionais não se adaptaram ainda. É bom que o façam, porque a situação na Síria está a expor esta nova forma de guerra como nunca. E ninguém neste Ocidente está preparado para isto.

Qual é a situação na Síria? Lutam o governo de Assad, vários grupos rebeldes, Estado Islâmico (um grupo rebelde, mas claramente com maior destaque) e curdos. Mais ou menos uns contra os outros, vêem ainda aviões da coligação liderada pelos Estados Unidos a cruzar os céus constantemente, assim como aviões russos e turcos – que deu aquele belo resultado que, um dia, é a desculpa que um deles quiser para algo maior.

De facto, neste momento, a nível mundial (Síria, Iraque, Líbia, Líbano, Egipto, Afeganistão, Nigéria, Camarões, Niger, Chade e Sudeste Asiático), a luta entre o denominado Ocidente e o radicalismo disfarçado de Islamismo tem mais de 40 facções envolvidas. Pois. Basta ir à Wikipédia (ainda assim, andei a verificar isto).

Daqui passo para os refugiados e para a islamofobia. Este ano, a Europa recebeu um teste enorme, e falhou de uma forma triste e medonha. Vendo-se a braços com mais de um milhão de pessoas a fugir ao calvário diário que são, neste momento, a Síria e partes do continente africano, prometemos acolher 160 mil pessoas. Na verdade, nove países da União Europeia acolheram um glorioso total de 266 pessoas. E ainda se fizeram títulos como “já acolheram 266 refugiados”. Fico perplexo. Desconcertado.

Seremos assim tão idiotas que não conseguimos perceber quando outros seres humanos precisam de ajuda, e quando percebemos, recusamos ajudar? Ou seremos nós tão mal informados que nunca chegamos a perceber nada? Aposto um Banif numa mistura dos dois. Mas não me consigo deixar de perguntar, e ficar sempre mais e mais surpreso: a nossa estupidez, a estupidez humana, é mesmo infinita?

Este não foi o único ponto em que a União Europeia falhou este ano. Sim, vou falar do que aconteceu na Grécia. Perante uma escolha democrática, os chefes do grande burgo europeu ficaram confusos e irritados. Houve ameaças, houve chantagem por parte do BCE e do Eurogrupo (que não tem existência nem autoridade legal absolutamente nenhuma, é um grupo “informal”), houve impertinência de pessoas que não suportam ver os seus pontos de vista desafiados. Impertinência de pessoas com muito poder, que acharam que era mais importante servir os credores do que servir as pessoas. Alguns países eram credores? Sim, mas todos sabemos que esses países tinham bancos que fizeram grandes e irresponsáveis empréstimos à Grécia. Menos de 10% de todo o dinheiro emprestado à Grécia foi para o Governo. Isso é um facto.

Estas acções não surpreenderam, porque fazem parte do domínio que uma família política está a exercer sobre a Europa, particularmente no Parlamento Europeu, há alguns anos. É o EPP – European People’s Party – a que pertencem o PSD e o CDS-PP. Tem sido uma família política bastante… prolífera, digamos, em privatizar lucros e tornar públicos os prejuízos, em forçar a austeridade porque era inevitável, porque as pessoas na Europa do Sul viveram acima das suas possibilidades, e outras tretas.

Ah, é uma família política que está bastante relutante, também, em acolher refugiados – o nosso próprio Passinhos recusou, escondendo-se atrás de ‘factores económicos’, antes de ter de aceitar uns quantos porque senão caía-lhe tudo em cima, e em ano de eleições, não convém.

Esta mesma família política gosta muito de declarar guerras e parece gostar muito do TTIP também, um tratado que, no Parlamento Europeu, segundo vários eurodeputados, está fechado numa sala vigiada em que ninguém pode entrar com nada para tomar notas ou tirar fotografias. Deve ser coisa boa, deve.

Tanta mais coisa aconteceu este ano… Os Estados Unidos viram uma onda de violência à mão armada como nunca, e inacção por parte do Congresso americano como nunca. Lá nos States, a corrida presidencial aqueceu este ano, e enquanto do lado dos Democratas não há problemas e apenas três candidatos à nomeação do partido, do lado dos Republicanos, a panóplia de incompetentes que se tornaram candidatos porque acham que se pode comandar o país que ainda detém mais poder neste mundo simplesmente dizendo que a sua masculinidade é maior que a dos outros é impressionante. Entre Donald Trump e Ted Cruz – os que mais perto estarão de obter a nomeação – venha o Diabo e escolha quem levar consigo.

Um ponto alto este ano foi a COP21 em Paris, e o Acordo que se seguiu. Há um problema, porém: é um texto altamente ambíguo, que não força ninguém a agir, e em vez disso apoia-se numa série de compromissos voluntários que os vários países submeteram e que terão de rever de cinco em cinco anos, supostamente. É um começo, mas muito longe do que é preciso para evitar os 2 graus de aquecimento.

2015 foi também um ano de corrupção generalizada. No Brasil, o escândalo da Petrobras continuou a dar que falar, e o caso Lava Jato abanou a política do país. Na FIFA, Sepp Blatter finalmente começou a ser investigado e, há poucos dias, foi suspenso da organização, como Michel Platini. Finalmente. E por cá, na Europa, a Volkswagen lembrou-nos a todos de como é fácil enganar os supervisores de um mercado.

2015 foi o ano em que um piloto da Germanwings fez um avião com 150 pessoas a bordo cair, cometendo um acto de terrorismo. Sim, terrorismo. Não é por ser caucasiano que não o pode fazer. Tinha problemas mentais? Pois, aquela gente no Daesh provavelmente também tem algum tipo de problema mental.

2015 foi o ano em que a política portuguesa perdeu uma barreira idiota que tinha há 40 anos entre os países de esquerda. Não estão todos no Governo, é certo, mas há acordos. É uma evolução. E não, as eleições legislativas não servem para eleger nem Governos, nem Primeiros-Ministros!

Em 2015, quanto a mim, o mundo voltou atrás mais de cem anos. Nessa altura, o mundo achou que estava seguro e que nada ia acontecer. Não fez nada. Não foi forte o suficiente. E assim se deu a Primeira Guerra Mundial. E o que vejo actualmente é um mundo a caminhar feliz e satisfeito da vida para uma Terceira Guerra Mundial. Soa pessimista? É altura para ser pessimista.

Como estamos a chegar aqui? Primeiro, uma sensação de falsa segurança. Uma sensação de que somos intocáveis e de que não há consequências. Nesse aspecto, já andamos a ser abalados.

Há, depois, uma tendência generalizada neste mundo para querer ter razão a toda a força, e não aceitar os pontos de vista das outras pessoas. Há uma tendência para inventar factos e não ser responsabilizado por isso. Há uma falta de responsabilização, não só na classe política e financeira, como entre o mais comum do cidadão. Nada é nossa culpa: ou foi o Governo, ou foi o vizinho do lado, ou foi o vento. Há uma tendência para a censura, temo: a falta de bases na educação sobre o que é a democracia e quais são os seus pilares só nos ajuda a caminhar para isto.

Ameaçados, muitos de nós preferem voltar à extrema-direita e às suas soluções que nos levaram à Segunda Guerra Mundial. Muitos de nós preferem garantias baratas e rápidas de segurança, a um mundo construído a longo prazo, pela educação das pessoas em padrões mais elevados.

Como podemos recusar a outros seres humanos a nossa ajuda? Como não conseguimos perceber que essas pessoas ficam sem nada para vir para a Europa, porque acham que os seus ideais ainda são os de defesa da dignidade humana acima de tudo, e que quando são forçados pela burocracia a voltar para o seu país de origem, radicalizam-se contra o ‘Ocidente’ que lhe recusou uma vida melhor?

Como podemos apontar a ideologia como origem dos males do mundo, quando já nos foi provado vezes sem conta que quem se diz sem ideologia, é quem tem a mais perigosa delas todas? Porque raio achamos que uma pessoa sem ideias próprias fará melhor trabalho? Será que não conseguimos perceber que foram as grandes ideias de um mundo melhor, dos idiotas lunáticos cheios de ideias, que nos levaram tão longe que saímos do nosso planeta?

Como podemos estar tão desresponsabilizados que atribuímos a culpa de todos os conflitos actuais às religiões? Será que este mundo conhece a religião, ou conhece o que a televisão lhe diz sobre a religião? Não conseguimos perceber que, como o Islamismo tem grupos extremistas como a Al-Qaeda e o Daesh, o Cristianismo tem grupos extremistas como Ku Klux Klan e a Westboro Baptist Church, e o Judaísmo tem… o governo de Israel. Porquê? Porque é que não percebemos que essas são leituras extremas dos livros sagrados de cada uma das religiões?

Como é que nos recusamos a perceber que tudo o que está a acontecer no Médio Oriente advém da luta das nações europeias pelo domínio e controlo daqueles pedaços de terra para controlar mais uma fonte de petróleo? Porque não percebemos que as fronteiras que desenhamos ali e em África são erradas, mal pensadas?

Como é que recusamos que a educação é o caminho para um mundo melhor e que todos têm de ser tratados por igual, venham de onde vierem, façam o que fizerem? Porquê sempre os mesmos erros?

Era bom que os anos fossem algo estanque. Que, depois de no último dia do ano percebermos o quão mais estragamos o nosso mundo e a vida de outras pessoas que nada fizeram para isso, pudéssemos parar as consequências dos nossos erros – tenham eles sido intencionais ou não – e começar de novo.

Não podemos fazer isso. Mas podemos melhorar-nos a nós próprios. Podemos começar a corrigir os nossos erros. O problema está em não querermos reconhecer que erramos. Em ter medo de errar.

Desculpem a longa reflexão. Bom ano de 2016.

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