Esta eleição presidencial vai dar cabo de todos nós

Esta eleição presidencial vai dar cabo de todos nós

Donald Trump's America
A América de Trump © André Carrilho

Este ciclo eleitoral de 2016 nos Estados Unidos da América está a ser definitivamente interessante. Um daqueles ciclos em que o curso da história e da política vai mudar. Por isso mesmo tenho consumido muito mais tempo do que consumia antes com notícias vindas dos ‘States’.

Está uma eleição interessante do lado dos Democratas porque pode mudar o partido de ‘esquerda’ lá do sítio – e atirá-lo mesmo para a esquerda, para o lado dos progressistas que defendem um serviço de saúde para todos, impostos bem mais elevados para os ricos, etc. Falo, claro, do impacto que Bernie Sanders está a ter na competição pela nomeação democrata para candidato à Casa Branca.

Se, quando anunciou a sua candidatura, todos pensámos que não iria longe, hoje sabemos que vai condicionar em muito a mensagem da campanha democrata – falou, no seu discurso na Terça, de vencer mais delegados, principalmente na Califórnia, apenas para o efeito de condicionar a campanha.

E que, não sendo nomeado – se isso era uma tarefa difícil antes da ronda de primárias de Terça, dia 26 de Abril, tornou-se agora quase impossível no sistema pouco democrático de nomeação do Partido Democrata – poderá ter efeito nas eleições ‘down-ballot’ (tudo o que seja abaixo da corrida à presidência).

Está também a ser interessante do lado dos Republicanos. Um interessante ‘normal’ da perspectiva da política. Um interesse ‘mau’ da perspectiva do cidadão.

Tal como com Sanders, também olhamos para Trump, quando anunciou a sua candidatura à nomeação republicana, e ficamos a achar que seria um fait-divers de curta duração. Tipo, o homem começou o anunciou a descer uma escada rolante enquanto acenava para o público presente…

Não todos, no entanto. Já aí alguns alertavam para o efeito que a polarização da política americana desde 2010 (ano da aprovação do Affordable Care Act – conhecido por ObamaCare) teria na corrida republicana. Principalmente com a acção dos senhores do Tea Party.

Esses “alguns” tinham razão. O Partido Republicano tornou-se mais radical nos últimos anos. O maior grupo ideológico de votantes no Estados Unidos – os ‘conservadores inabaláveis’ – passou a votar em maior número, e o eleitorado conservador, em geral, identificou-se com um novo movimento ideológico que veio recuperar o conservadorismo adormecido desde a saída de George W. Bush. Esse movimento é o Tea Party.

Com a lei Obamacare a ser aprovada, muitos foram os políticos republicanos que foram substituídos por políticos mais à direita – do tal Tea Party – enquanto eram acusados por esses de serem socialistas por terem deixado passar uma lei que deixa muitos ter acesso a cuidados de saúde que, de outra forma, não teriam. Saberão, com certeza, que junto da maioria dos americanos, um termo como ‘socialismo’ ou outro qualquer relacionado, mesmo que muito pouco, com o comunismo, é venenoso.

E assim, com as eleições intercalares de 2010 e, com mais força, na eleições de 2012, entram em cena políticos como Ted Cruz, Rand Paul, Michele Bachmann e muitos mais. O que é comum entre eles? Todos se declaram o conservador mais conservador que há, e lutam por isso publicamente. São radicais no verdadeiro sentido da palavra – praticamente não aceitam negociações, e só aceitam leis que expressem na sua totalidade as suas crenças políticas e não só.

Entre todos estes, o especialista é Ted Cruz, que em 2013 fez um discurso de 21 horas no Senado – o chamado filibuster – para impedir que o orçamento para 2014 fosse aprovado e tentar retirar os fundos ao programa ObamaCare, iniciando assim um encerramento do Governo federal americano durante duas semanas.

O certo é que, nas primeiras semanas de campanha, Trump anda lá em baixo nas sondagens, numa corrida republicana disputada entre meia dúzia e mais uns quantos. Em Outubro, liderava as sondagens. E, na chegada aos caucus do estado de Iowa, já o magnata estava em condições de disputar vitórias eleitorais. O que aconteceu entre uma coisa e outra? Trump abriu a boca.

Abriu a boca e nunca mais parou. Começou nos mexicanos e no muro na fronteira, e deu logo um salto nas sondagens. Depois decidiu que era boa ideia impedir os muçulmanos de entrar nos Estados Unidos “até percebermos o que raio se passa aqui” – e deu mais um salto nas sondagens. Isto sem esquecer os problemas enormes de segurança em comícios da campanha de Donald Trump, com manifestantes a serem agredidos pela multidão enquanto os seguranças observavam, impávidos e serenos. Note-se: era o próprio Donald Trump a dizer “drag him out of here”, incitando à violência.

Fez comentários repletos de misoginia, zangou-se com Megyn Kelly (Fox News) por uma pergunta difícil num debate – atribuiu a pergunta ao ciclo menstrual da jornalista – virou palhacinho da corte e começou a disparatar sobre o 11 de Setembro, sobre um repórter com uma deficiência física, sobre os métodos de tortura usados pela CIA, sobre “eliminar” as famílias dos terroristas, sobre usar bombas nucleares – inclusive na Europa – sobre prisioneiros de guerra, por aí fora – e andou sempre a subir nas sondagens.

O próprio Trump fez, em Janeiro, a constatação dos factos: “Podia ficar no meio da Quinta Avenida [em Nova Iorque] e disparar contra as pessoas e não perdia votos.” Exacto. Nem mais. É uma frase que diz tudo sobre os quase 11 milhões de Republicanos registados que já votaram nele.

Atenção: Trump não estava propriamente isolado nestas posições no campo republicano. Ted Cruz falou constantemente em largar bombas indiscriminadamente nas zonas de influência do Estado Islâmico

Agora, Trump é o presumível candidato do Partido Republicano à Casa Branca. Ted Cruz – esse ‘diabo encarnado’ – e John Kasich encerraram as suas campanhas depois das primárias do Indiana – o único estado que, nas presidenciais de 2012, mudou de Democrata para Republicano – onde Donald Trump venceu por quase 20% face a Ted Cruz.

Reince Priebus, o presidente do Comité Nacional Republicano – o presidente do partido, mas não o seu líder – parece ter ditado o tom do partido neste assunto. Logo que saíram os resultados das primárias, Priebus publicou este tweet:

A conta do partido – GOP (Grand Old Party) é a alcunha do partido nos EUA – seguiu a mesma linha. Não sabemos, no entanto, se o tweet é sério ou se é ironia. Provavelmente – e infelizmente – é a sério.

Nas horas que se seguiram muitos foram os republicanos que publicaram vídeos e fotos de si próprios a queimarem/destruírem o seu cartão de registo no partido, uns dizendo que iam mudar para o Partido Conservador (um partido pequeno nos Estados Unidos), outros simplesmente ficando sem registo em nenhum partido.

Seja como for, as agulhas de todos já estão viradas para a campanha Julho-Novembro. Trump conseguirá a nomeação do Partido Republicano – basta-lhe para isso vencer na Califórnia e mais um punhado de estados mais pequenos – e será o primeiro candidato presidencial de um dos dois grandes partidos americanos que nunca antes foi eleito para outro cargo desde o general Dwight D. Eisenhower.

Acontece que Eisenhower passou muitos dos anos anteriores à sua eleição, em 1952, a lutar contra e, por fim, a derrotar Hitler cá pela Europa. Já Trump é o novo Hitler. A história é um círculo vicioso tão bonito, não é?

Passemos então, à caótica e feia eleição que aí vem. Vou fazer uma previsão: vai ser uma eleição sobre carácter, e sobre as capacidades que qualificam cada um dos candidatos a ser o próximo – ou a próxima – Presidente dos Estados Unidos da América. Porque é que digo isto? Por causa destes anúncios de Hillary Clinton.

 

A estratégia aqui é simples. Anúncios de ataque a Donald Trump com outros republicanos a falar mal dele, como ele não está preparado para ser presidente dos Estados Unidos. Anúncios de ataque a Donald Trump que colam as suas políticas ao Partido Republicano. Durante a campanha, Hillary Clinton quase nem terá que falar de propostas políticas – o que é mau, mas passemos à frente por agora… – basta deixar Trump falar e dizer as suas asneiras, que os votantes independentes e alguns republicanos votam sem dúvida em Hillary.

Ou não.

Parte do problema que trouxe Trump até aqui sem ninguém saber muito bem como é a negação em que quase todos estivemos até aqui. Constantemente dissemos que Donald Trump nunca conseguiria a nomeação, porque com Ted Cruz a roubar-lhe vitórias em alguns estados, não chegaria à convenção com a maioria dos delegados. E, sendo assim, não sendo nomeado na primeira votação, entraríamos numa convenção em que os delegados poderiam votar em quem quisessem – a revista Time fez uma peça sobre a luta entre campanhas para colocar delegados nas representações dos estados que pessoalmente favorecessem a sua campanha. E que, neste cenário, Trump cairia – voltaria talvez criando uma candidatura independente com forte expressão.

Agora Trump tem o caminho livre para a nomeação – exceptuando surpresas que, nesta fase, seriam bombásticas.

E poderá chegar a presidente? Sim. Apesar de Trump ser certamente o candidato que parte para a corrida com um índice de opinião desfavorável mais alto, Hillary Clinton também não tem um índice de opinião desfavorável muito bom. Aliás, o número de republicanos que a detestam é bem grande. O número de independentes que desconfiam dela não será pequeno.

O assunto da intolerância também não é um assunto que puxe assim tantos votantes quanto isso. E este não é uma intolerância de racismo totalmente declarado – apesar da proposta proibição à entrada de muçulmanos no país, a par dos imigrantes mexicanos. O discurso de Trump neste campo é um de ‘nós contra eles’, o que é muito mais aceitável para muitos americanos, e até pode ser menos um obstáculo na frente do homem laranja, visto ter um elemento ‘unificador’ num certo grupo do eleitorado norte-americano.

Trump tem também a grande capacidade de definir qual é o assunto de uma campanha. Já Hillary deixa-se levar no que os outros definem, o que levou à sua derrota nas primárias de 2008 e a um caminho difícil este ano.

E Clinton estará, aos olhos de muitos, a defender o status quo, enquanto Trump é o candidato que levanta o dedo do meio a isto tudo. O que é que isto pode trazer? O voto republicano em peso em Donald Trump, enquanto os actuais apoiantes de Bernie Sanders, não se revendo nem em Hillary, nem em Trump, ou votam noutro partido que não um dos grandes, ou decidem ficar em casa. E quem ganha neste caso? Provavelmente será Trump, mesmo que por poucos votos no Colégio Eleitoral.

Existe, também, o factor da cobertura mediática. Ou vocês acham mesmo que, no primeiro dia depois de as duas convenções, a Democrata e a Republicana, estarem terminadas, os média se vão virar e dizer que durante Agosto, Setembro, Outubro e uma parte de Novembro, ‘escusam de ver o que nós transmitimos porque está tudo decidido e é a Hillary que vai ganhar’? Obviamente, a resposta é um não.

Um pequeno exemplo: este ano, nas eleições para a AAUM – Associação Académica da Universidade do Minho – só houve uma lista candidata à direcção. Nem sabem a minha desilusão, como editor da secção de Sociedade do ComUM, quando soube disso.

É que, na semana de campanha, não houve campanha. Podem dizer que fizeram isto ou aquilo mas, em contraste com o ano anterior, em que as pessoas eram puxadas por esta ou por aquela lista, naquela semana só houve paz, sossego e um auditório vazio na apresentação do programa da Lista A. Aquilo que a minha cabeça já tinha planeado – um redactor atribuído a cada uma das listas existentes, responsável por cobrir cada evento dessa candidatura, mais duas ou mais Grandes Entrevistas aos candidatos – acabou por não fazer sentido.

E não se fez. Não houve ‘hype’ há volta daquilo. Não houve pessoal a ir ao nosso site ler algo que tínhamos arranjado em exclusivo. Já toda a gente sabia quem ia ganhar – a única verdadeira incógnita era a abstenção – e pronto, ficámos neste marasmo. É que nem deu pica.

E é precisamente por essa razão que os média vão fazer disto uma competição entre “Coca-Cola versus Pepsi em vez de Coca-Cola versus água de esgoto.” Não é uma teoria da conspiração. É o sistema a funcionar como está habituado. E, tal como Trump foi tendo tempo de antena grátis – porque seria uma tragicomédia à espera de se desenvolver – e foi subindo inadvertidamente nas sondagens, o mesmo voltará a acontecer, e Hillary encontrará resistência nos média, porque é quase a candidata perfeita, e todos nós adoramos falar mal da perfeição que não existe, não é?

Basta Trump vencer nos estados industriais no nordeste – Ohio, Indiana, Illinois, Pensilvânia, Michigan, Virginia do Oeste e Wisconsin – onde já provou ter apelo junto dos trabalhadores e ex-trabalhadores das grandes indústrias que já por lá estiveram e, mantendo os outros estados como estão, vence com 290 votos no Colégio Eleitoral. E Trump poderá fazer estados tradicionalmente republicanos enojarem-se e fugirem, ao mesmo tempo que ganha novos estados, menos convencionais para os conservadores americanos.

Ou seja, em Novembro, tanto podemos ter uma vitória brutal de Hillary Clinton, arrumando também ambas as casas do Congresso – o Senado será mais difícil –  como Donald Trump pode voltar a meter convenções políticas no lixo com o mesmo à vontade com que defeca palavras sobre o mundo em geral e ser o próximo Presidente do Estados Unidos da América.

Posto tudo isto, em que momento é que nos revelam que isto é um episódio de Halloween de ‘West Wing’ e que ainda estamos no período de transição entre o Presidente Bartlet e o Presidente Santos?

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