Guerra de culturas n’A Grande Selva: não acaba hoje

Guerra de culturas n’A Grande Selva: não acaba hoje

Tudo começou há 597 dias. Há um ano, sete meses e 17 dias, Ted Cruz anunciava a sua candidatura à presidência e dava o tiro de partida no Grande Circo de eleição do presidente da Grande Selva. As eleições presidenciais para a presidência dos Estados Unidos da América, em termos mais comuns. Vamos todos pensar onde andávamos há 597 dias e deprimir um bocado? Eu ainda estava no primeiro ano da licenciatura, por exemplo.

O mundo ainda não tinha testemunhado o acidente com o avião da Germanwings que matou todos a bordo. A guerra no Iémen ainda não tinha começado. O escândalo que derrubou Sepp Blatter da presidência da FIFA ainda não tinha rebentado. A Grécia ainda andava nas bocas do mundo com a sua ‘rebeldia’ face à União Europeia, ao Eurogrupo e ao FMI. A Rússia ainda não tinha entrado na Guerra da Síria. Nunca ninguém tinha questionado, em directo para a televisão, um trabalhador da Telepizza sobre qual era a pizza que vinha entregar. Paris e Nice ainda não tinham sofrido noites de indescritíveis horrores. Ainda não tinham sido lançados os ‘Panama Papers’ – se bem que, aqui em Portugal, o Expresso e a TVI parecem nunca se ter lembrado de o fazer. Ainda não havia Brexit e Dilma Rousseff ainda não tinha sido impugnada.

E hoje, tudo acaba. Mais ou menos, mas já lá vamos. O que interessa aqui é que hoje, nos EUA, é dia de eleições. Não só para decidir o próximo inquilino da Casa Branca, mas também para decidir quem ocupa 34 lugares dos 100 no Senado, os 435 da Câmara dos Representantes, os governadores de 12 estados e respectivas legislaturas, e ainda a aprovação ou recusa de 162 medidas diferentes – referendos vinculativos, portanto – em 35 estados. Há também eleições para as presidências de câmaras municipais, direcções de escolas, instituições públicas de gestão de recursos, painéis judiciais… No total, são 24062 eleições e 44763 candidatos. Muita fruta.

Quem vai ganhar? Quem vai ser o próximo presidente dos EUA? São as perguntas que toda a gente faz. E neste momento a resposta é que provavelmente Hillary Clinton será quem tomará posse na escadaria do Capitólio ao meio-dia de 20 de Janeiro de 2017. É provável, mas está longe de ser certo.

Apoiado no fiel modelo do FiveThirtyEight – que podem ver e explorar aqui – seguem duas previsões: o resultado final, estado a estado; e os estados aos quais estar atento esta noite:

Sobre a previsão do resultado eleitoral, não há muito a dizer a não ser que é uma previsão cautelosa, que mostra o mínimo que Hillary Clinton tem e deverá conseguir hoje. O mapa de states-to-watch é indicativo de onde a eleição será mais renhida, de onde pode haver mudanças nos estados.

Entre todos esses estados há alguns que, pela demografia, dados históricos e sondagens, têm um peso maior que os outros. Não em termos de votos eleitorais, mas pela representação que fornecem do comportamento do eleitorado, devido à sua diversidade. A Flórida (FL) e a Carolina do Norte (NC) são os dois estados que têm maior poder representativo, e os quais ainda penso que vão acabar no lado republicano do Colégio Eleitoral. No entanto, qualquer tendência que estes estados mostrem no que toca à afluência às urnas dos vários grupos demográficos ilustrará o que estará a acontecer no resto do país. E se um estado como a Carolina do Norte volta a dar vitória aos Democratas, então Clinton estará muito melhor do que tem parecido nos últimos dias. Já para não falar que daria muito jeito a Clinton vencer na Flórida, para compensar uma potencial derrota em um ou dois dos estados do Cinturão Industrial.

Os restantes states-to-watch são: Michigan e Pensilvânia, Nevada e New Hampshire, Colorado, Virginia e Wisconsin, Ohio e Iowa, Arizona e Geórgia, e o Minnesota e Novo México. Todos estes são estados com importância no mapa eleitoral pelo seu peso no Colégio Eleitoral e pela sua demografia, pelo que podem ser conjugados de formas diferentes em vários mapas com resultados contrastantes.

Depois, no capítulo dos cenários loucos, temos ainda o estado do Alasca, o segundo distrito congressional do Maine, o estado do Maine, o segundo distrito congressional do Nebraska e ainda o Utah – tudo casos que apenas teriam importância na eventualidade de uma eleição muito, muito renhida.

Mais detalhe sobre a importância de cada estado e cada cenário possível? Então ide ao FiveThirtyEight. A sério. É que não me pagam para estar a explicar tudo o que sei aqui.

Também não me pagam para estar aqui a falar dos 597 dias de campanha, mas para malhar estou cá eu. Entre os emails de Hillary Clinton e os tratos intragáveis de Donald Trump, o sentimento nos meses finais da campanha foi de nojo. A sério América, foi o melhor que arranjaste? Credo.

Hillary Clinton pode não ser grande coisa. Sim, tem posições muito questionáveis, e algumas das suas decisões passadas acabaram a provarem-se erradas. Tem o problema da Fundação Clinton – criada por Bill Clinton depois de deixar a presidência dos EUA – que causou e vai causar conflitos de interesse. E tem o problema dos emails enviados com o seu servidor privado enquanto era Secretária de Estado, a diplomata de topo dos Estados Unidos.

Sim, foi burrice. Foi incompetência. Usar um servidor privado foi estúpido. Mas, primeiro, Hillary Clinton não foi a primeira a fazê-lo e, segundo, não cometeu nenhum crime. Violou as regras do Departamento de Estado, mas não violou nenhuma lei. Mas claro, nesta era de partidos fracos super-polarizados, o normal do Partido Republicano voltou a ser tentar criminalizar os seus oponentes por tudo o que puderem. Contra a presumível nomeada do Partido Democrata para ser candidata a presidente, os republicanos voltaram ao modo de default dos anos de Bill Clinton na Casa Branca. E os meios de comunicação social foram atrás, e nunca ajudaram a esclarecer o caso – porque já estavam a criar uma campanha de 2016 renhida.

E os emails que a Wikileaks tem divulgado, obtidos através do email de John Podesta, o director de campanha de Hillary? Muito bons para ler se quiserem aprender a fazer risotto e perceber o funcionamento de uma campanha nacional a todo o vapor para a presidência dos EUA. Ajudaram a revelar, finalmente, os discursos pagos de Clinton para os bancos de Wall Street – que não trazem novidade nenhuma para além do que já sabíamos sobre a proximidade de Clinton ao sistema financeiro. Ou seja, foi idiotice da campanha não os divulgar quando Bernie Sanders o reclamou. Mas, sabem, em retrospectiva, todos conseguimos ver isso. O vídeo abaixo explica mais:

Aparte dos emails de Clinton e das loucas teorias da conspiração, o que nos causa dúvidas sobre Hillary? A sua proximidade a Wall Street é um grande factor, principalmente para a ala mais progressiva dos Democratas, que se estava a ver representada em Bernie Sanders. As políticas que defende estariam normalmente mais próximas do centro do Partido Republicano, mas a plataforma do Partido Democrata é, este ano, a mais progressiva de sempre (#ThanksBernie). E Clinton pende tendencialmente a favor da intervenção militar, o que não é grande coisa. Ah, e é política de carreira. Algo que também não abona nada a favor dela.

Mas e Donald Trump? Vamos continuar a fingir que não há nada de mal nele? Desde o início foi escapando ao escrutínio por ser uma piada. Depois escapou ao escrutínio porque era necessário dar a percepção de que a eleição seria renhida. E agora? Sim, soubemos dos seus comentários repugnantes sobre mulheres. E mais? Não se fala do seu problema com o Deutsche Bank, que seria um enorme conflito de interesses caso Trump fosse presidente. Não se fala do julgamento de 28 de Novembro em que Trump será arguido pelas fraudes da Universidade Trump, nem no julgamento de Dezembro, em que Trump é acusado de ter violado uma criança. Os comentários dignos de teóricos da conspiração passam quase incólumes. As mentiras, então, não têm oposição de ninguém a não ser da campanha de Clinton. A este ponto, o Homem-Laranja já disse tanta coisa tão má que eu já nem me consigo lembrar de mais de metade. Mas basta pesquisar. E se não quiserem usar o Google porque acham que o seu algoritmo está a favorecer Clinton, força. As coisas aparecem na mesma. Não aparece é a sua declaração de impostos – porque nos faria ver definitivamente que o homem e os seus negócios não valem um chavo.

Vamos lá ser honestos: Trump é um racista xenófobo, um homem de negócios que está cheio de dívidas e processos contra si, um autoritário que tem o ego lá em cima por razões desconhecidas à lógica humana. Quer dizer, o KKK declara o seu apoio a este monte de …, e a resposta que eu tenho no meu Facebook, ao partilhar a notícia, é um comentário a dizer que “se fosse um jornal de negros a fazer endorsement … já não havia mal nenhum… claro,vale!” ? Está tudo tolo? Que raio de OVNI caiu nas vossas cabeças para conseguir defender um monte de poios laranjas destes? Andamos a limpar, com os lençóis do Klan, a falta de consciência das pessoas.

Mas sim, claro, a eleição está viciada. Só se Trump perder. Claro. Porque nem são os Republicanos que, ao nível dos estados, retiram locais de voto aos distritos onde estão as minorias étnicas – os grupos demográficos que menos votam a favor do Partido Republicano – causando assim filas enormes que prejudicam estas pessoas, que têm menos condições (ou nenhumas) para faltar, chegar atrasado ou sair mais cedo do trabalho para poder votar. Porque nem são os Republicanos que usam estratégias de medo para fazer com que essas pessoas não saiam de casa no dia das eleições. Porque nem são republicanos que vão para a beira dos locais de voto com armas, para intimidar estes votantes. Sim, isto é que é democracia, amigos. Isto e a Guiné Equatorial. Querem saber como viciar uma eleição? Vejam isto:

Mas os problemas da eleição americana não se ficam pelos candidatos deste ano – que só têm espaço para vitória porque estão a competir um contra o outro.

Não acham 597 dias um exagero? Eu acho. A minha saúde mental, e a do planeta, também. Sim, América, nós sabemos que isso é tradição. Mas reparem: as campanhas, no século XIX, começavam cedo porque não havia aviões nem carros. Os candidatos andavam literalmente de carroça entre os vários estados. Claro que aí, nessas condições, os 597 dias faziam sentido. Mas actualmente, com carros, aviões e a internet, é um bocado inútil. E, no fim de contas, acabam por não visitar os estados todos. Ou acham que a Clinton foi perder tempo ao Colorado ou ao Oregon? E acham mesmo que o Trump, até com a sua campanha mal planeada, andou no Montana e no Idaho à procura de votos eleitorais?

Porque é que os EUA não mudam para o sistema do Reino Unido, por exemplo, em que são seis semanas que chegam para tudo? Porque isso não interessa a ninguém. As televisões lucram com isto como loucas – e é por isso que não vêm ninguém na CNN ou na CBS a defender um corte drástico ao tempo de campanha nos EUA. Aliás, há uma parte da economia americana criada à volta das eleições, que são um enorme gasto de dinheiro – uns 6 triliões de dólares, mais ou menos.

Também é tradição os EUA terem um sistema eleitoral estupidamente complicado e antiquado. Mais uma vez, o Colégio Eleitoral fazia sentido no séc. XIX, quando a única forma de comunicar os resultados de cada estado era ir a Washington DC dizê-los presencialmente. Não há razão lógica para os Estados Unidos não implementarem um sistema que seja ‘uma pessoa, um voto’, em que todos os votos em todos os estados valem o mesmo. Porque é que importa a contagem de votos no Colégio Eleitoral e não a percentagem do voto popular? Que raio de ideias é que vocês têm na cabeça, pá? E ainda insistem em votar à terça, como se isso desse muito jeito a muitas pessoas… Irra!

Mas o que esta eleição mostra mesmo, mesmo bem, é que nos EUA há uma cultura de racismo e xenofobia que só estava à espera de representação política para andar de novo nas bocas do mundo. Esta eleição mostra que ainda há uma parte dos Estados Unidos que sofre com pouca educação e ignorância, mas que assim se quer manter. E enquanto esta guerra de culturas, que é quase uma guerra entre Norte e Sul, mas que não o é porque é uma guerra que opõe populações dentro dos mesmos estados, continuar, vamos ter de permanecer preocupados com um novo Donald Trump, ou coisas que não são muito melhores que ele – Ted Cruz, por exemplo. Enquanto esta guerra de valores, entre diversidade e nacionalismo, entre inclusão e exclusão, entre um Estado para todos e um Estado só para brancos e ricos, continuar, vamos continuar a ter muitos pesadelos com os Estados Unidos da América.

Foram 597 dias de nojo, entre-cortados por alguma esperança. No fundo, temos todos saudades é de Bernie Sanders (#FeelTheBern).

Bernie Scares Trump

Esta noite decide-se um bocado o futuro o mundo. Quer se goste ou não, os EUA dominam a cena internacional, e o que por lá acontece impacta todos. Portanto, América, só há uma coisa a dizer: não nos lixes.

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