Fórmula 1 na Netflix? O novo capítulo que se pode estar a abrir

Fórmula 1 na Netflix? O novo capítulo que se pode estar a abrir

O tema foi aberto ontem, de forma surpreendente, por Sean Bratches, director comercial da Fórmula 1, numa conferência no Circuit of the Americas antes do Grande Prémio dos Estados Unidos deste fim-de-semana.

Não é a partir do nada que um responsável comercial faz uma declaração destas, e logo em solo americano. No início do mês foi anunciado que os direitos de transmissão da Fórmula 1 nos EUA vão saltar, no próximo ano, das mãos da NBCSN para as da ESPN. O mais relevante, no entanto, foi que a NBC decidiu não assinar um novo contrato “no qual o próprio detentor dos direitos compete connosco e com os nossos parceiros de distribuição.” Escusado é dizer que isto levantou todo o tipo de rumores sobre quais serão os planos digitais da F1, principalmente sobre a possibilidade de disponibilizar conteúdo over-the-top (OTT), principalmente com transmissões em directo do mesmo conteúdo (sessões de treinos, qualificação e corridas) em simultâneo. E para uma plataforma OTT da Fórmula 1 é absolutamente vital a capacidade de transmitir em directo.

Aliás, não há nenhum sítio onde isso se torne mais claro que na subreddit dedicada à F1. A 11 de Outubro surgiu aí uma nova conversa, iniciada por um utilizador chamado ‘F1_Research’. Isto é: um verdadeiro representante da empresa Fórmula 1 dirigiu-se a uma das maiores comunidades online de adeptos deste desporto para lhes perguntar qual deve ser o futuro do conteúdo digital da Fórmula 1. As respostas, ainda com um certo tom de incredulidade por algo que, há um ano, seria absolutamente impossível, são claras, assertivas e estruturadas, revelando que o assunto de uma plataforma de streaming própria da F1 é já um tema com barbas na comunidade.

E transversal a quase todas as propostas é transmissão de conteúdos em directo através de uma plataforma própria, com acesso a todas as câmaras e todos os dados assim como ao feed básico da transmissão mundial, a uma biblioteca de conteúdos de arquivo, a detalhes técnicos da produção e evolução dos carros (com mais vídeos de bastidores das garagens e equipas), chegando até a sugerir os diferentes pacotes, desde básico a acesso completo, com ou sem anúncios.

E chegamos então ao momento em que um dos três homens de poder na Fórmula 1 atual diz, em público, que está a tentar um contrato com a Netflix para o próximo ano. Que quer isto dizer? Teremos já em 2018 tudo o que propusemos?

Neste ponto do campeonato já não preciso de explicar aqui o que é o Netflix nem a importância do seu papel na alteração do panorama da produção e distribuição de conteúdos. Antes apenas se falaria das séries transmitidas em horário nobre na televisão (como ainda se faz com Game of Thrones); agora fala-se também das séries que plataformas como esta produzem e distribuem independentemente – Narcos, House of Cards, BoJack Horseman, entre muitas outras – e em qualquer altura do ano (mas principalmente quando é lançada uma nova temporada).

A seguir a tornar pública a intenção de assinar acordo com a Netflix, Sean Bratches não quis dar mais detalhes. Mas tudo isto – principalmente este passo – alinha-se com uma das metas da Liberty Media, a dona do grupo F1 desde o final de 2016: apostar na digitalização dos conteúdos. É algo que pode alterar de maneira fundamental um dos pilares que sustenta o negócio, já que um terço da facturação anual da Fórmula 1 vem dos valores pagos pelas cadeias televisivas pelos direitos de transmissão, tendo substituído a publicidade como maior fatia das receitas há já algum tempo (principalmente a partir do momento em que os valores da publicidade nos canais abertos caem e esses canais deixam de poder pagar os direitos, passando esses para canais fechados).

Daí advém também o problema que a Fórmula 1 tem com o seu público, cada vez mais pequeno e envelhecido e com oportunidades de renovação muito baixas, dado que os conteúdos são maioritariamente de acesso restrito – algo que está a mudar com a nova estratégia de redes sociais.

Actualmente a Netflix não transmite conteúdos em directo, e também se diz pouco ou nada interessada nisso. Porém esta pode ser uma experiência com frutos duradouros e valiosos a longo prazo para a plataforma de streaming, abrindo possibilidades de novos conteúdos.

O que pode acontecer? Para começar, a parceria pode ser apenas uma que disponibilize o vasto arquivo de corridas – e seria, ainda assim, bastante valiosa para muitos adeptos da F1. Poderá abarcar algo relacionado com o testes pré-temporada uma nova forma de os apresentar aos adeptos aqueles que tradicionalmente são os eventos mais fechados do desporto. Pode, ainda que seja algo mais complicado de obter, conter os direitos de transmissão em alguns países, aumentando o portefólio geográfico à medida que os contratos televisivos são renovados e os canais aceitam transmitir a corrida para a Netflix carregar depois o produto daquele país na sua plataforma (baixando os custos do contratos), ou deixam de transmitir de todo, passando a Netflix a ter o papel de transmissão em directo dos conteúdos. Algo que é pouco provável que a Fórmula 1 queira precisamente por causa do seu problema com a renovação do público, algo que não pode ser feito integralmente apenas através das redes sociais.

E a FOM – a empresa que efectivamente gere os direitos associados à Fórmula 1 – já disse que planeia “personalizar” as transmissões a cada mercado para potenciar da melhor forma o interesse de cada região ou país. A Netflix, com o seu sistema geográfico de separação de conteúdos – com o qual podemos ou não concordar, mas que existe por questões contratuais com as empresas a quem a Netflix compra conteúdos – pode ser uma óptima plataforma para o fazer.

Conclusão? Prognósticos só no final do jogo. Mas parece-me que os adeptos da F1 podem ter algumas surpresas agradáveis a caminho.

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